Reconhecer a minha mediocridade é tão forte quanto beber um elixir fatal.
É o risco do abismo, o corte certo, a estrada deserta, o farol direto na cara.
Curvando-me diante da fraqueza, fortaleço minhas defesas em saber quem sou.
Lamber o doce veneno da vida,
escalar o Everest de patins,
fazer cócegas com a navalha,
beijar a víbora na boca,
jogar paciência no precipício,
me perder no meio do fogo
e cruzar as chamas sem ser visto,
esquentar marmitas no vulcão,
dançar ao som de um trovão,
fazer do relâmpago a rabiola da pipa,
surfar na tsunami.
Preciso de um sopro de alegria.
Que a vida seja forte, lenta e intensa ao mesmo tempo, onde eu consiga enxergar na paisagem as mesmas cores de ontem que hoje vejo sem nitidez.
Persistir num ideal é, para mim, manter a coluna ereta e o coração cheio de sonhos, desejos e esperanças que se renovam ao sabor dos meus pensamentos.
Não, esta não é a vida que eu quis! É a vida que eu tenho, mas farei dela algo ainda melhor que nem eu mesmo imaginei.
"Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços meu pecado de pensar."
Clarice Lispector
terça-feira, 20 de abril de 2010
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