Somos seres que ainda caminhamos para o humano ou nos esquecemos de brotar?
Autoridades do Burundi, um pequeno país no centro da África, encontraram no final de semana o corpo de um garoto de nove anos que estava desaparecido.
O cadáver estava desmembrado. Órgãos vitais haviam sido removidos, e a carcaça de seu corpo foi abandonada num rio na fronteira do Burundi com a Tanzânia. Mais um caso de violência como inúmeros que ocorrem diariamente no continente, não fosse pelo detalhe macabro: ele era albino.
O albinismo, decorrente da falta de pigmentação na pele, é especialmente cruel com os africanos. Em qualquer lugar do planeta pessoas albinas chamam a atenção. Na África, por motivos evidentes (o contraste com a pele negra é maior), muito mais.
Some-se a isso a dificuldade que é viver num ambiente de clima tórrido e com sol a pino 365 dias por ano como é a África central. Pessoas sem pigmentação na pele precisam tomar cuidados extras para não adquirir câncer de pele.
Albinos são uma minoria discriminada e perseguida em todo o continente. Em centros urbanos de grandes países, sofrem preconceito. Mas pode ser pior, como mostra o caso do garoto do Burundi.
Em regiões da África central, há uma caçada por partes do corpo de um albino para uso em rituais de bruxaria. Acredita-se, sobretudo em zonas rurais, que o cabelo, a pele, o sangue e órgãos como coração e fígado têm poderes rejuvenescedores, ou que trazem riqueza. Quanto mais jovem (“pura”) for a a vítima, maiores seriam os efeitos.
O problema é mais sério em dois países: Tanzânia e Quênia, mas atinge toda a região. Burundi, Ruanda, Uganda e República Democrática do Congo também registram casos frequentes.
Em 2008, uma investigação da rede britânica BBC constatou o assassinato de 25 albinos na Tanzânia no período de um ano.
O número é assustador, como indica uma conta rápida. O gene do albinismo afeta 1 pessoa em cada 20 mil.
Na Tanzânia, país de 40 milhões de pessoas, haveria portanto cerca de 2.000 albinos. A morte de 25 deles significa 1,25% desse universo assassinado em apenas 12 meses. Uma enormidade, considerando-se que nos países mais violentos do mundo a taxa de homicídios chega no máximo a 0,15% da população por ano.
Os crimes em geral são obra de gangues especializadas agindo em conluio com policiais corruptos.
A viúva de uma vítima relatou à BBC que seu marido foi morto à luz do dia, retirado de sua casa por dois homens com facões que começaram a mutilá-lo no ato. “Queremos suas pernas!”, gritavam.
A boa notícia é que hoje se presta mais atenção a esse drama, muito em razão da pressão internacional. Albinos nas regiões mais afetadas se organizam em associações, e estão sempre em contato.
As prisões aumentaram. Em agosto, uma pessoa que tentava vender albinos foi condenada a 17 anos de cadeia no Quênia. Na Tanzânia, o Parlamento tem agora sua primeira deputada albina, nomeada pelo presidente para dar uma voz a essa minoria.
Passos positivos, mas tímidos. Como mostra o caso do garoto de Burundi, o que vai mudar a situação é um misto de repressão e educação, o que leva tempo.
Um comentário:
seremos um pouco mais evoluídos quando aprendermos a reconhecer que as diferenças existem sim,pararmos de agir com hipocrisia.Seremos mais evoluídos quando aprendermos a conviver com as divergências,quaisquer que sejam elas.
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