Reproduzo aqui, para encerrar este ano de 2010, o mesmo texto que escrevi para me despedir de 2009. Naquele momento o peso de algumas palavras se encaixaram perfeitamente com a vontade e o desejo que tinha que o velho ano logo fosse embora, deixando para trás lembranças com um gosto de nunca-mais. Embora tenha consagrado 2010 como um ano de reconquistas para mim, convoco aos que irão ler pela primeira vez o texto ou para aqueles que vão ler novamente, uma despedida de todas as coisas que não fazemos questão que nos acompanhem no novo ano que já bate às nossas portas, deixando bem longe mágoas, lembranças amargas e velhas bagagens.
Caminhos de luz e prosperidade a todos!
Vai, ano velho, vai de vez
Vai com tuas dívidas e dúvidas
Vai, dobra a esquina da sorte, e no trinta e um,
A meia-noite esgota o copo
A culpa do que nem lembro
E me cravou entre janeiro e dezembro.
Vai, leva tudo: destroços, ossos,
Fotos dos ausentes, beijos de atrizes,
Enchentes, secas, suspiros, jornais...
VADE RETRUM, vai pra trás!
Leva pra escuridão quem me assaltou
O carro, a casa e o coração,
Não quero te ver mais, só daqui a anos,
Nos anais, nas fotos do nunca-mais.
Vem, ano novo, vem veloz,
Vem em quadrias, aladas, antigas
ou jatos de luz modernas, vem,
paira, desce, habita em nós,
tenho pressa de novidade,
do que ainda estar por vir
Vem com cavalhadas, folias, reisados,
rezas, bençãos e mandingas, fitas multicores,
rabecas, vem com uva e mel, e desperta
em nosso corpo a alegria.
Escancara a alma, a poesia, e por um instante,
estanca o verso real, perverso
e sacia em nós a fome de utopia.
Vem na areia da ampulheta, no tempo que corre,
estando em nós, ausentes ou presentes
como uma semente que contivesse outra semente
ou do umbigo da gente como um ovo.
O sol, a gema do ano novo que rompesse
a placenta da noite em viva flor luminescente.
Adeus, tristeza: não te quero mais,
Até nunca mais!
A vida é uma caixa chinesa
de onde brota a manhã.
Agora é recomeçar.
A realidade é urgente.
Entre flores e sementes
é permitido sonhar.
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
O burro
O burro me impressiona.
Tenho pensado muito sobre ele.
O burro é tão burro que não percebe que perde muita coisa na vida e, sobretudo, tempo em não se esforçar em buscar a inteligência.
O burro é antes de tudo vaidoso.
Falta humildade no ser.
Ele não percebe o quanto ele não está bem.
A burrice tem um pouco de mau caratismo.
O burro se convence de que é inteligente, quando na verdade nem sabe o que sente.
Há um misto de ódio, raiva e compaixão de quem o assiste.
Ele não sabe, mas no fundo é um tolo que espera ser aplaudido e nada tem de inocente.
Tenho pensado muito sobre ele.
O burro é tão burro que não percebe que perde muita coisa na vida e, sobretudo, tempo em não se esforçar em buscar a inteligência.
O burro é antes de tudo vaidoso.
Falta humildade no ser.
Ele não percebe o quanto ele não está bem.
A burrice tem um pouco de mau caratismo.
O burro se convence de que é inteligente, quando na verdade nem sabe o que sente.
Há um misto de ódio, raiva e compaixão de quem o assiste.
Ele não sabe, mas no fundo é um tolo que espera ser aplaudido e nada tem de inocente.
Annick Goutal
Esse é o nome de uma das marcas de maior prestígio e exclusividade no mundo da perfumaria. Annick Goutal, pianista francesa que morreu aos 53 anos, deixou um belíssimo legado de requinte e bom gosto impresso nas suas fragrâncias, que retratam com elegância e beleza várias fases de sua vida, desde a infância até a fase adulta.Agora que voltei ao universo da maquiagem, exercendo esta função que durante muito tempo me fez feliz, e trabalhando em um ambiente onde imperam estas cores e informações dos aromas e suas histórias, vou assim aprendendo cada vez mais e descobrindo alguns artistas desta esfera que me emocionam, assim como Yves Saint Laurent e Chanel.
Tenho uma predileção pela criação dos aromas carregados de inteligência, precisão nas notas, impacto pelo que o olfato pode revelar, destes que poucos conseguem entender e reconhecer e, entre estes, certamente estão as elegantes fragrâncias de Annick Goutal.
O que nos resta de humanos?
Texto intitulado VIOLÊNCIA CONTRA HOMOSSEXUAIS, por Drauzio Varela, caderno Folha Ilustrada do dia 04 de dezembro de 2010 na Folha de SP:
A HOMOSSEXUALIDADE é uma ilha cercada de ignorância por todos os lados. Nesse sentido, não existe aspecto do comportamento humano que se lhe compare.
Não há descrição de civilização alguma, de qualquer época, que não faça referência a mulheres e a homens homossexuais. Apesar de tal constatação, esse comportamento ainda é chamado de antinatural.
Os que assim o julgam partem do princípio de que a natureza (leia-se Deus) criou os órgãos sexuais para a procriação; portanto, qualquer relacionamento que não envolva pênis e vagina vai contra ela (ou Ele).
Se partirmos de princípio tão frágil, como justificar a prática de sexo anal entre heterossexuais? E o sexo oral? E o beijo na boca? Deus não teria criado a boca para comer e a língua para articular palavras?
Se a homossexualidade fosse apenas uma perversão humana, não seria encontrada em outros animais. Desde o início do século 20, no entanto, ela tem sido descrita em grande variedade de invertebrados e em vertebrados, como répteis, pássaros e mamíferos.
Em alguma fase da vida de virtualmente todas as espécies de pássaros, ocorrem interações homossexuais que, pelo menos entre os machos, ocasionalmente terminam em orgasmo e ejaculação.
Comportamento homossexual foi documentado em fêmeas e machos de ao menos 71 espécies de mamíferos, incluindo ratos, camundongos, hamsters, cobaias, coelhos, porcos-espinhos, cães, gatos, cabritos, gado, porcos, antílopes, carneiros, macacos e até leões, os reis da selva.
A homossexualidade entre primatas não humanos está fartamente documentada na literatura científica. Já em 1914, Hamilton publicou no "Journal of Animal Behaviour" um estudo sobre as tendências sexuais em macacos e babuínos, no qual descreveu intercursos com contato vaginal entre as fêmeas e penetração anal entre os machos dessas espécies. Em 1917, Kempf relatou observações semelhantes.
Masturbação mútua e penetração anal estão no repertório sexual de todos os primatas já estudados, inclusive bonobos e chimpanzés, nossos parentes mais próximos.
Considerar contra a natureza as práticas homossexuais da espécie humana é ignorar todo o conhecimento adquirido pelos etologistas em mais de um século de pesquisas.
Os que se sentem pessoalmente ofendidos pela existência de homossexuais talvez imaginem que eles escolheram pertencer a essa minoria por mero capricho. Quer dizer, num belo dia, pensaram: eu poderia ser heterossexual, mas, como sou sem-vergonha, prefiro me relacionar com pessoas do mesmo sexo.
Não sejamos ridículos; quem escolheria a homossexualidade se pudesse ser como a maioria dominante? Se a vida já é dura para os heterossexuais, imagine para os outros.
A sexualidade não admite opções, simplesmente se impõe. Podemos controlar nosso comportamento; o desejo, jamais. O desejo brota da alma humana, indomável como a água que despenca da cachoeira.
Mais antiga do que a roda, a homossexualidade é tão legítima e inevitável quanto a heterossexualidade. Reprimi-la é ato de violência que deve ser punido de forma exemplar, como alguns países o fazem com o racismo.
Os que se sentem ultrajados pela presença de homossexuais que procurem no âmago das próprias inclinações sexuais as razões para justificar o ultraje. Ao contrário dos conturbados e inseguros, mulheres e homens em paz com a sexualidade pessoal aceitam a alheia com respeito e naturalidade.
Negar a pessoas do mesmo sexo permissão para viverem em uniões estáveis com os mesmos direitos das uniões heterossexuais é uma imposição abusiva que vai contra os princípios mais elementares de justiça social.
Os pastores de almas que se opõem ao casamento entre homossexuais têm o direito de recomendar a seus rebanhos que não o façam, mas não podem ser nazistas a ponto de pretender impor sua vontade aos mais esclarecidos.
Afinal, caro leitor, a menos que suas noites sejam atormentadas por fantasias sexuais inconfessáveis, que diferença faz se a colega de escritório é apaixonada por uma mulher? Se o vizinho dorme com outro homem? Se, ao morrer, o apartamento dele será herdado por um sobrinho ou pelo companheiro com quem viveu por 30 anos?
A HOMOSSEXUALIDADE é uma ilha cercada de ignorância por todos os lados. Nesse sentido, não existe aspecto do comportamento humano que se lhe compare.
Não há descrição de civilização alguma, de qualquer época, que não faça referência a mulheres e a homens homossexuais. Apesar de tal constatação, esse comportamento ainda é chamado de antinatural.
Os que assim o julgam partem do princípio de que a natureza (leia-se Deus) criou os órgãos sexuais para a procriação; portanto, qualquer relacionamento que não envolva pênis e vagina vai contra ela (ou Ele).
Se partirmos de princípio tão frágil, como justificar a prática de sexo anal entre heterossexuais? E o sexo oral? E o beijo na boca? Deus não teria criado a boca para comer e a língua para articular palavras?
Se a homossexualidade fosse apenas uma perversão humana, não seria encontrada em outros animais. Desde o início do século 20, no entanto, ela tem sido descrita em grande variedade de invertebrados e em vertebrados, como répteis, pássaros e mamíferos.
Em alguma fase da vida de virtualmente todas as espécies de pássaros, ocorrem interações homossexuais que, pelo menos entre os machos, ocasionalmente terminam em orgasmo e ejaculação.
Comportamento homossexual foi documentado em fêmeas e machos de ao menos 71 espécies de mamíferos, incluindo ratos, camundongos, hamsters, cobaias, coelhos, porcos-espinhos, cães, gatos, cabritos, gado, porcos, antílopes, carneiros, macacos e até leões, os reis da selva.
A homossexualidade entre primatas não humanos está fartamente documentada na literatura científica. Já em 1914, Hamilton publicou no "Journal of Animal Behaviour" um estudo sobre as tendências sexuais em macacos e babuínos, no qual descreveu intercursos com contato vaginal entre as fêmeas e penetração anal entre os machos dessas espécies. Em 1917, Kempf relatou observações semelhantes.
Masturbação mútua e penetração anal estão no repertório sexual de todos os primatas já estudados, inclusive bonobos e chimpanzés, nossos parentes mais próximos.
Considerar contra a natureza as práticas homossexuais da espécie humana é ignorar todo o conhecimento adquirido pelos etologistas em mais de um século de pesquisas.
Os que se sentem pessoalmente ofendidos pela existência de homossexuais talvez imaginem que eles escolheram pertencer a essa minoria por mero capricho. Quer dizer, num belo dia, pensaram: eu poderia ser heterossexual, mas, como sou sem-vergonha, prefiro me relacionar com pessoas do mesmo sexo.
Não sejamos ridículos; quem escolheria a homossexualidade se pudesse ser como a maioria dominante? Se a vida já é dura para os heterossexuais, imagine para os outros.
A sexualidade não admite opções, simplesmente se impõe. Podemos controlar nosso comportamento; o desejo, jamais. O desejo brota da alma humana, indomável como a água que despenca da cachoeira.
Mais antiga do que a roda, a homossexualidade é tão legítima e inevitável quanto a heterossexualidade. Reprimi-la é ato de violência que deve ser punido de forma exemplar, como alguns países o fazem com o racismo.
Os que se sentem ultrajados pela presença de homossexuais que procurem no âmago das próprias inclinações sexuais as razões para justificar o ultraje. Ao contrário dos conturbados e inseguros, mulheres e homens em paz com a sexualidade pessoal aceitam a alheia com respeito e naturalidade.
Negar a pessoas do mesmo sexo permissão para viverem em uniões estáveis com os mesmos direitos das uniões heterossexuais é uma imposição abusiva que vai contra os princípios mais elementares de justiça social.
Os pastores de almas que se opõem ao casamento entre homossexuais têm o direito de recomendar a seus rebanhos que não o façam, mas não podem ser nazistas a ponto de pretender impor sua vontade aos mais esclarecidos.
Afinal, caro leitor, a menos que suas noites sejam atormentadas por fantasias sexuais inconfessáveis, que diferença faz se a colega de escritório é apaixonada por uma mulher? Se o vizinho dorme com outro homem? Se, ao morrer, o apartamento dele será herdado por um sobrinho ou pelo companheiro com quem viveu por 30 anos?
Assinar:
Postagens (Atom)
