Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.
----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
No dia do meu casamento fiquei muito aflita.
Tomamos cerveja quente com empada de capa grossa.
Tive filhos com dores.
Ontem, imprecisamente, às nove e meia da noite,
eu tirava da bolsa um quilo de feijão.
NÃO LUTO MAIS DAQUELE MODO HISTÉRICO,
ENTENDI QUE TUDO É PÓ QUE SOBRE TUDO
POUSA E RECOBRE E AO SEU MODO PACIFICA.
As laranjas freudianamente me remetem a uma fatia de sonho.
Meu apetite se aguça, estralo as juntas de boa impaciência.
Quem somos nós entre o laxante e o sonífero?
Haverá sempre uma nesga de poeira sob as camas,
um copo mal lavado.
Mas que importa?
Que importam as cinzas,
se há convertidos em sua matéria ingrata,
até olhos que sobre mim estremeceram de amor?
Este vale é de lágrimas.
Se disser de outra forma, mentirei.
Hoje parece maio, um dia esplêndido,
os que vamos morrer iremos aos mercados.
O que há neste exílio que nos move?
Digam-no os legumes sobraçados e esta elegia.
O que escrevi, escrevi
porque estava alegre.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
Antes do dia partir
Devo me empenhar em não deixar o dia partir inutilmente.
É pieguice, mas antes de dormir, quando o dia que passou está dando o prefixo e saindo do ar, eu penso: o que valeu a pena hoje? Sempre tem alguma coisa. Uma proposta de trabalho. Um telefonema. Um filme. Um corte de cabelo que deu certo. Até uma briga pode ter sido útil, caso tenha iluminado o que andava ermo dentro da gente.
Já para algumas pessoas ganhar o dia é ganhar mesmo: ganhar um aumento, ganhar na loteria, ganhar um pedido de casamento, ganhar uma licitação, ganhar uma partida. Mas para quem valoriza apenas as megavitórias, sobram centenas de outros dias em que, aparentemente, nada acontece, e geralmente são essas pessoas que vivem dizendo que a vida não é boa, e seguem cultivando sua angústia existencial com carinho e uísque, mesmo já tendo seu superapartamento, sua bela esposa, seu carro do ano e um salário aditivado.
Nas últimas semanas meus dias foram salvos por detalhes que eu só reconheço agora. Uma segunda-feira valeu por um programa de rádio que fez um tributo aos Beatles e que me arrepiou, me transportou para uma época legal da vida, me fez querer dividir aquele momento com pessoas que são importantes pra mim. Na terça, meu dia não foi em vão porque uma pessoa que amo recebeu um diagnóstico positivo de uma doença que poderia ser mais séria. Na quarta, o dia foi ganho porque o aluno de uma escola me pediu para tirar uma foto com ele. Na quinta, uma amiga que eu não via há meses ligou me convidando para almoçar. Na sexta, o dia não partiu inutilmente só por causa de um cachorro-quente. E assim correm os dias, presenteando a gente com uma música, um crepúsculo, um instante especial que acaba compensando 24 horas banais.
Claro que têm dias que não servem pra nada, dias em que ninguém nos surpreende, o trabalho não rende e as horas arrastam-se melancólicas, sem falar naqueles dias em que tudo dá errado: batemos o carro, perdemos um cliente e o encontro da noite é desmarcado. POIS ESTOU PRA DIZER QUE ATÉ A TRISTEZA PODE TORNAR UM DIA ESPECIAL, SÓ QUE NÃO FICAREMOS SABENDO DISSO NA HORA, E SIM LÁ ADIANTE, NAQUELE LUGAR CHAMADO FUTURO, ONDE TUDO SE JUSTIFICA. É muita condescendência com o cotidiano, eu sei, mas não deixar o dia de hoje partir inutilmente é o único meio de a gente aguardar com entusiasmo o dia de amanhã.
Martha Medeiros, Abril de 2000
É pieguice, mas antes de dormir, quando o dia que passou está dando o prefixo e saindo do ar, eu penso: o que valeu a pena hoje? Sempre tem alguma coisa. Uma proposta de trabalho. Um telefonema. Um filme. Um corte de cabelo que deu certo. Até uma briga pode ter sido útil, caso tenha iluminado o que andava ermo dentro da gente.
Já para algumas pessoas ganhar o dia é ganhar mesmo: ganhar um aumento, ganhar na loteria, ganhar um pedido de casamento, ganhar uma licitação, ganhar uma partida. Mas para quem valoriza apenas as megavitórias, sobram centenas de outros dias em que, aparentemente, nada acontece, e geralmente são essas pessoas que vivem dizendo que a vida não é boa, e seguem cultivando sua angústia existencial com carinho e uísque, mesmo já tendo seu superapartamento, sua bela esposa, seu carro do ano e um salário aditivado.
Nas últimas semanas meus dias foram salvos por detalhes que eu só reconheço agora. Uma segunda-feira valeu por um programa de rádio que fez um tributo aos Beatles e que me arrepiou, me transportou para uma época legal da vida, me fez querer dividir aquele momento com pessoas que são importantes pra mim. Na terça, meu dia não foi em vão porque uma pessoa que amo recebeu um diagnóstico positivo de uma doença que poderia ser mais séria. Na quarta, o dia foi ganho porque o aluno de uma escola me pediu para tirar uma foto com ele. Na quinta, uma amiga que eu não via há meses ligou me convidando para almoçar. Na sexta, o dia não partiu inutilmente só por causa de um cachorro-quente. E assim correm os dias, presenteando a gente com uma música, um crepúsculo, um instante especial que acaba compensando 24 horas banais.
Claro que têm dias que não servem pra nada, dias em que ninguém nos surpreende, o trabalho não rende e as horas arrastam-se melancólicas, sem falar naqueles dias em que tudo dá errado: batemos o carro, perdemos um cliente e o encontro da noite é desmarcado. POIS ESTOU PRA DIZER QUE ATÉ A TRISTEZA PODE TORNAR UM DIA ESPECIAL, SÓ QUE NÃO FICAREMOS SABENDO DISSO NA HORA, E SIM LÁ ADIANTE, NAQUELE LUGAR CHAMADO FUTURO, ONDE TUDO SE JUSTIFICA. É muita condescendência com o cotidiano, eu sei, mas não deixar o dia de hoje partir inutilmente é o único meio de a gente aguardar com entusiasmo o dia de amanhã.
Martha Medeiros, Abril de 2000
domingo, 2 de janeiro de 2011
O Brasil de Macabéas
Não sou um cara partidário, mas na medida do possível tento ser um indivíduo politizado dentro de um país majoritariamente ainda imerso na ignorância da consciência política que nos achata e nos impede de pensar. Exercer raciocínio é um exercício constante de dedicação, na tentativa de pertencer a uma nação, sociedade, de ser cidadão, enfim. Agora neste momento de transição política onde teremos mais quatro anos de um novo governo, com a presidenta, estabeleceu-se mais uma vez a força histórica e democrática, para os que votaram e para os que não votaram nela. O Brasil quis a Dilma, agora ela é de todos nós! Torço para que ela governe para toda "essa gente que ri quando deve chorar e não vive, apenas aguenta."
Acho que a grande transformação do governo que se encerra foi o legado de auto-estima que Lula deixou de herança para nós brasileiros; deu identidade a tantos e tantas Macabéas que não tinham tido a devida oportunidade, vendo nele uma referência do homem igual a eles mesmos, que da situação de nordestino e inteligente operário foi alçado à condição de presidente da República. Ainda há muito que melhorar, crescer, superar...Sem mais subserviência, silêncio e conformismo. As macabéas estão por ai, ainda vivem e sofrem como a pobre heroína da história, torço para que esta legião não encontre a sua hora da estrela somente no momento da morte.
Acho que a grande transformação do governo que se encerra foi o legado de auto-estima que Lula deixou de herança para nós brasileiros; deu identidade a tantos e tantas Macabéas que não tinham tido a devida oportunidade, vendo nele uma referência do homem igual a eles mesmos, que da situação de nordestino e inteligente operário foi alçado à condição de presidente da República. Ainda há muito que melhorar, crescer, superar...Sem mais subserviência, silêncio e conformismo. As macabéas estão por ai, ainda vivem e sofrem como a pobre heroína da história, torço para que esta legião não encontre a sua hora da estrela somente no momento da morte.
Assinar:
Postagens (Atom)