quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Adélia Prado, essa mulher que descobri

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.
----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
No dia do meu casamento fiquei muito aflita.
Tomamos cerveja quente com empada de capa grossa.
Tive filhos com dores.
Ontem, imprecisamente, às nove e meia da noite,
eu tirava da bolsa um quilo de feijão.
NÃO LUTO MAIS DAQUELE MODO HISTÉRICO,
ENTENDI QUE TUDO É PÓ QUE SOBRE TUDO

POUSA E RECOBRE E AO SEU MODO PACIFICA.
As laranjas freudianamente me remetem a uma fatia de sonho.
Meu apetite se aguça, estralo as juntas de boa impaciência.
Quem somos nós entre o laxante e o sonífero?
Haverá sempre uma nesga de poeira sob as camas,
um copo mal lavado.
Mas que importa?
Que importam as cinzas,
se há convertidos em sua matéria ingrata,
até olhos que sobre mim estremeceram de amor?
Este vale é de lágrimas.
Se disser de outra forma, mentirei.
Hoje parece maio, um dia esplêndido,
os que vamos morrer iremos aos mercados.
O que há neste exílio que nos move?
Digam-no os legumes sobraçados e esta elegia.
O que escrevi, escrevi
porque estava alegre.

2 comentários:

Sheylinha disse...

Olá meu bem... Adelia Prado é de minha cidade, Divinópolis. Além de ser sensível à alma é sensível às pessoas, é figura fácil e de extrema simpatioa por estas ruas.

Regis Sodré disse...

Que luxo de conterrânea, hein...Ela é realmente figura de encantamento! Obrigado pelo comentário. Grande abraço!