quinta-feira, 31 de março de 2011

Blog do Vitor Angelo

Transcrevo aqui dois posts escritos pelo jornalista e roteirista Vitor Angelo da Folha de São Paulo em seu blog chamado Blogay. De forma lúcida e inteligente ele escreve sobre temas que envolvem a contribuição de gays, lésbicas e travestis para o mundo sem a pieguice cansativa e pouco produtiva da bandeira do orgulho LGBT, mas sim como todos podem e devem contribuir - em especial estas minorias - para a diminuição do preconceito em sociedade com argumento, formação política e conhecimento dos direitos e deveres civis.
Que a nossa voz não se cale diante de tais armas de ofensa.

Política para bem viver e direitos humanos para todos os humanos direitos!


30/03/2011

Carta aberta ao senhor deputado federal Jair Bolsonaro


Caro deputado,


É muito cômodo ficar do lado do vencedor, lamber as suas botas. Quando o senhor esbraveja que a ditadura militar foi maravilhosa, é porque é muito fácil estar protegido pelos que eram mais fortes naquele momento
da história. Mas tenho que te avisar que é de uma covardia de alta patente fazer isso como se fosse um ato heroico dentro da bandeira paradoxal da democracia
.

Gostaria que o senhor espumasse tudo que sempre grita à favor dos militares de direita se estivéssemos em uma ditadura de esquerda, por exemplo, e que ela fosse contra todos os princípios que diz acreditar. Será que o senhor surgiria assim impávido para defender os milicos ou estaria em conchavos com a burocracia do partido que estivesse no poder? Bom, dentro de muitas coisas que li, por isso falho aqui de dar a referência de quem escreveu, o senhor é a prova viva que a democracia é melhor que qualquer ditadura, porque se ela fosse contra os ideais que o senhor diz ter, já estaria fuzilado literalmente e nem espaço para a defesa teria direito. O deputado quer apresentar no Congresso as explicações da resposta que deu à cantora Preta Gil que perguntou o que o senhor faria se um filho seu namorasse uma negra, a resposta foi: “Preta, não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco, meus filhos foram muito bem educados e não viveram em um ambiente como, lamentavelmente, é o teu”. Fazendo esse exercício abstrato e filosófico, vamos imaginar – o senhor consegue, deputado! – o mundo comandado por negros e homossexuais. Como branco e heterossexual, no caso uma minoria nesse mundo às avessas que nem afros nem gays desejamos pois a luta é por direitos iguais, o Jair que tem dentro do senhor teria capacidade de sair nas ruas para lutar pelos seus direitos ou ficaria recriminando os arianos militantes em uma espécie de “heterofobia” introjetada? Algo me diz que o senhor ficaria com a segunda opção. Explico: numa primeira resposta a essa polêmica, em um ato de bravura assumiu que não entendeu a pergunta e que não foi erro da edição do programa, mas agora com a reação democrática de boa parte da sociedade esclarecida do país, mudou de opinião em questão de 24 horas e, em uma entrevista para uma rádio, disse que foi manipulação dos editores do CQC os responsáveis pela sua fala um tanto surreal. Isto é, ao perceber que os fortes não estão lhe acobertando e as instituições se movem contra o senhor é mais fácil recuar como fazem os gays silenciosos da Bella Paulista. Voltando a esse troca-troca, vamos colocar luz na afirmação que senhor diz ter confundido negro por gay. Se seu filho namorasse com um gay, ele formaria um casal, conceito que está do lado oposto à ideia de promiscuidade. Já, se ele casasse com uma negra, seus genes - dentro de teorias eugenistas – estariam se misturando, se promiscuindo com os genes de outra etnia. Faz mais sentido o objeto do ataque do discurso ser uma negra do que um gay. Como também – para os crentes dessas teses contra a miscigenação – só numa família de negros (um gene fraco segundo os eugenistas), as pessoas não são bem educadas e tem ambientes desequilibrados. Bolsonaro responde às questões de racismo exclamando que tem muitos afrodescendentes em seu gabinete e diz: “Minha mulher é afro e meu sogro, negão”. Caro deputado, não poderia ter resposta mais infeliz e dúbia. Onde o senhor quis dizer que admite negros no seu trabalho, pode-se ler também que como o bom e velho patriarcalismo brasileiro descrito no clássico “Casa Grande & Senzala” continua vivo com negros no "seu lugar de sempre", como empregados. E se referindo à família, na mesma obra-prima de Gilberto Freyre, temos capítulos e capítulos sobre a descrição de brancos que tomam as negras como objeto sexual, podendo até as colocar em posições de prestígio, vide Xica da Silva. Não digo que é o seu caso, mas que pode suas declarações não isenta a atitude racista que está sendo questionado. Mas para terminar a carta, eu não poderia deixar de te dar um toque. O pai de Preta Gil que o deputado diz que é “aquele que vive dando bitoquinha em macho por aí” é muito mais homem que o senhor porque ele não tem medo de beijar homem e ainda assim ter uma conduta heterossexual, Gilberto Gil não tem medo, não é covarde e sabe bem o que deseja, por isso a tranquilidade de oferecer seu beijo a quem quer que ele queira. Costuma-se dizer que todo homofóbico é um gay enrustido, eu francamente prefiria de coração que esse exemplo não coubesse na figura de Jair Bolsonaro, porque ter o senhor como gay é pior que dormir com o inimigo.

Atenciosamente,


um viado que teve pai presente, boa educação e pago meus impostos para que o senhor receba um salário polpudo no fim do mês.


Escrito por Vitor Angelo às 13h38.


28/03/2011

Educação e homossexualidade



Acima temos um vídeo educativo explicando não só a homossexualidade como também os ataques que essa orientação sexual sofre. O vídeo caminha pelas regras dos "news studies" e tem uma forte linguagem politicamente correta. Percebe-se o embasamento na ciência para comprovar as teorias e também a linguagem adotada pela correção política, nunca usar opção e sim orientação. Na verdade, essa implicância com as palavras é uma forma de emparedamento da linguagem tão opressora quanto a que é vivida diariamente entre os homossexuais. É importante atentar para esses materiais didáticos, pois por mais que eles tenham uma função de ser claro, e nisso o textoe as imagens são exemplares, ele - esse vídeo - também fecha para a maleabilidade da sexualidade humana. Existem homens e mulheres que experimentam o sexo gay e depois se sentem mais confortáveis sendo héteros e vice-versa. Emparedar também a sexualidade humana é uma forma de opressão. Sim, o vídeo apenas quer ser didático, mas precisamos atentar para que o didatismo não repita formas de opressão que ele tanto combate.

Escrito por Vitor
Angelo às 20h46.

terça-feira, 29 de março de 2011

Meu mais provável discurso

Tenho pensado e discutido muito sobre a possibilidade de me relacionar com alguém de uma forma mais madura e inteligente. Já tive alguns encontros (bons) que não valorizei, porque no momento não compreendia a importância deles e das pessoas que vieram através deles. Ainda não tinha maturidade suficiente. Simplesmente não entendia nada, assim, só fui entender e me arrepender hoje, no futuro, mas ficou lá atrás naquele passado as lembranças do quanto eu poderia ter aprendido se tivesse aproveitado aqueles encontros. Hoje acredito que o bom encontro é de um. Se o outro me compreender, for tolerante comigo e ainda me amar na mesma vibração que a minha, será tudo lindo e vivo; do contrário, se sinceramente o quiser e ele tiver as suas diferenças, fugas, oscilações e ainda se mantiver ao meu lado por vontade própria, este será o momento ideal pra aproveitar e crescer, porque não quero mais desejar com controle, alimentar ciúme, procurar motivos rasos e nem profundos pra brigas e discussões, exigir sem ceder, etc. Quero aproveitar o melhor do convívio que o outro pode me proporcionar, porque assim o entendo, amo e respeito, sem exageros, mas com cuidado, cautela e consciência. Não me preocupar em ser feliz amanhã, nos dias que ainda virão, mas hoje, agora, quando as coisas acontecem. Amar sem exigir é aprendizado pra toda a vida. Escolhi tanto alguém que me oferecesse primeiro seu carinho para que eu pudesse avaliar se valia a pena, para só então eu doar a porção que considerava suficiente, com isso quem sempre perdeu fui eu. Não tinha muito a oferecer a não ser a minha displicência. Quero poder amar, desejar e depois dizer, corresponder, trocar (mesmo se não tiver recebido nada), comparecer e estar ao lado; ainda que me traia, oculte fatos, minta às vezes, disfarce com frequência, tudo isso não faz mal (acontecendo ou não) se enquanto comigo estiver me fizer o bem que sempre quis. Por tudo, serei feliz. Meu encontro já terá valido a pena. Como já disse o poeta: Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma. A alma é que estraga o amor. Só em Deus ela pode encontrar satisfação. Não noutra alma. Só em Deus - ou fora do mundo. As almas são incomunicáveis. Deixa teu corpo entender-se com outro corpo. Porque os corpos se entendem, mas as almas não. Manuel Bandeira

terça-feira, 22 de março de 2011

Valer a pena

Torço muito por Jean Wyllys e seu mandato a deputado federal pelo PSOL-RJ. Tomara que ele seja a força contrária e necessária pelo direito das minorias na Câmara.
Torço, gosto e ponto.

Todo errado...

O que o total equívoco, cegueira e ignorância produzem.
Este deputado federal no vídeo abaixo chamado Jair Bolsonaro do PP-RJ, subiu ao plenário da câmara federal no último dia 17 de março, acusando o governo de criar uma versão LGBT do programa de distribuição de renda Bolsa Família. Na verdade, imerso em seu habitual desconhecimento e munido de bastante preconceito, ele tentava discursar sobre detalhes do recém-lançado Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais.
A quem interessar possa, é só pesquisar.
Direitos aos humanos direitos!!!

quinta-feira, 10 de março de 2011

Mudança

Estas palavras traduzem o meu atual momento. Representam muito pra mim. Talvez você as entenda.

"Tudo tão raso, tão sem espaço. O meu lugar eu mesmo acho."

Sente-se em outra cadeira, no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.
Quando sair, procure andar pelo outro lado da rua. Depois, mude de caminho, ande por outras ruas, calmamente, observando com atenção os lugares por onde você passa.
Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas.

Dê os seus sapatos velhos.
Procure andar descalço alguns dias. Tire uma tarde inteira para passear livremente na praia, ou no parque, e ouvir o canto dos passarinhos.
Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas e portas com a mão esquerda.

Durma no outro lado da cama... Depois, procure dormir em outras camas. Assista a outros programas de tv, compre outros jornais... leia outros livros.
Viva outros romances.
Não faça do hábito um estilo de vida. Ame a novidade.

Durma mais tarde. Durma mais cedo.
Aprenda uma palavra nova por dia numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos, escolha comidas diferentes, novos temperos, novas cores,
novas delícias.
Tente o novo todo dia. O novo lado, o novo método, o novo sabor, o novo jeito, o novo prazer, o novo amor.
A nova vida. Tente. Busque novos amigos. Tente novos amores. Faça novas relações.
Almoce em outros locais, vá a outros restaurantes, tome outro tipo de bebida, compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo, jante mais tarde

ou vice-versa.
Escolha outro mercado... outra marca de sabonete, outro creme dental... Tome banho em novos horários.
Use canetas de outras cores. Vá passear em outros lugares.
Ame muito, cada vez mais, de modos diferentes.
Troque de bolsa, de carteira, de malas, troque de carro, compre novos óculos, escreva outras poesias.
Jogue os velhos relógios, quebre delicadamente esses horrorosos despertadores.
Abra conta em outro banco. Vá a outros cinemas, outros cabeleireiros, outros teatros, visite novos museus.
Mude.
Lembre-se de que a Vida é uma só. E pense seriamente em arrumar um outro emprego, uma nova ocupação, um trabalho mais light, mais prazeroso, mais digno, mais humano.
Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as. Seja criativo.
E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa, longa, se possível sem destino. Experimente coisas novas. Troque novamente. Mude, de novo. Experimente outra vez.
Você certamente conhecerá coisas melhores e coisas piores do que as já conhecidas, mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia. Só o que está morto não muda !
Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não
vale a pena!


Clarice Lispector