Transcrevo aqui dois posts escritos pelo jornalista e roteirista Vitor Angelo da Folha de São Paulo em seu blog chamado Blogay. De forma lúcida e inteligente ele escreve sobre temas que envolvem a contribuição de gays, lésbicas e travestis para o mundo sem a pieguice cansativa e pouco produtiva da bandeira do orgulho LGBT, mas sim como todos podem e devem contribuir - em especial estas minorias - para a diminuição do preconceito em sociedade com argumento, formação política e conhecimento dos direitos e deveres civis.
Que a nossa voz não se cale diante de tais armas de ofensa.
Política para bem viver e direitos humanos para todos os humanos direitos!
30/03/2011
Carta aberta ao senhor deputado federal Jair Bolsonaro
Caro deputado,
É muito cômodo ficar do lado do vencedor, lamber as suas botas. Quando o senhor esbraveja que a ditadura militar foi maravilhosa, é porque é muito fácil estar protegido pelos que eram mais fortes naquele momento da história. Mas tenho que te avisar que é de uma covardia de alta patente fazer isso como se fosse um ato heroico dentro da bandeira paradoxal da democracia.
Gostaria que o senhor espumasse tudo que sempre grita à favor dos militares de direita se estivéssemos em uma ditadura de esquerda, por exemplo, e que ela fosse contra todos os princípios que diz acreditar. Será que o senhor surgiria assim impávido para defender os milicos ou estaria em conchavos com a burocracia do partido que estivesse no poder? Bom, dentro de muitas coisas que li, por isso falho aqui de dar a referência de quem escreveu, o senhor é a prova viva que a democracia é melhor que qualquer ditadura, porque se ela fosse contra os ideais que o senhor diz ter, já estaria fuzilado literalmente e nem espaço para a defesa teria direito. O deputado quer apresentar no Congresso as explicações da resposta que deu à cantora Preta Gil que perguntou o que o senhor faria se um filho seu namorasse uma negra, a resposta foi: “Preta, não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco, meus filhos foram muito bem educados e não viveram em um ambiente como, lamentavelmente, é o teu”. Fazendo esse exercício abstrato e filosófico, vamos imaginar – o senhor consegue, deputado! – o mundo comandado por negros e homossexuais. Como branco e heterossexual, no caso uma minoria nesse mundo às avessas que nem afros nem gays desejamos pois a luta é por direitos iguais, o Jair que tem dentro do senhor teria capacidade de sair nas ruas para lutar pelos seus direitos ou ficaria recriminando os arianos militantes em uma espécie de “heterofobia” introjetada? Algo me diz que o senhor ficaria com a segunda opção. Explico: numa primeira resposta a essa polêmica, em um ato de bravura assumiu que não entendeu a pergunta e que não foi erro da edição do programa, mas agora com a reação democrática de boa parte da sociedade esclarecida do país, mudou de opinião em questão de 24 horas e, em uma entrevista para uma rádio, disse que foi manipulação dos editores do CQC os responsáveis pela sua fala um tanto surreal. Isto é, ao perceber que os fortes não estão lhe acobertando e as instituições se movem contra o senhor é mais fácil recuar como fazem os gays silenciosos da Bella Paulista. Voltando a esse troca-troca, vamos colocar luz na afirmação que senhor diz ter confundido negro por gay. Se seu filho namorasse com um gay, ele formaria um casal, conceito que está do lado oposto à ideia de promiscuidade. Já, se ele casasse com uma negra, seus genes - dentro de teorias eugenistas – estariam se misturando, se promiscuindo com os genes de outra etnia. Faz mais sentido o objeto do ataque do discurso ser uma negra do que um gay. Como também – para os crentes dessas teses contra a miscigenação – só numa família de negros (um gene fraco segundo os eugenistas), as pessoas não são bem educadas e tem ambientes desequilibrados. Bolsonaro responde às questões de racismo exclamando que tem muitos afrodescendentes em seu gabinete e diz: “Minha mulher é afro e meu sogro, negão”. Caro deputado, não poderia ter resposta mais infeliz e dúbia. Onde o senhor quis dizer que admite negros no seu trabalho, pode-se ler também que como o bom e velho patriarcalismo brasileiro descrito no clássico “Casa Grande & Senzala” continua vivo com negros no "seu lugar de sempre", como empregados. E se referindo à família, na mesma obra-prima de Gilberto Freyre, temos capítulos e capítulos sobre a descrição de brancos que tomam as negras como objeto sexual, podendo até as colocar em posições de prestígio, vide Xica da Silva. Não digo que é o seu caso, mas que pode suas declarações não isenta a atitude racista que está sendo questionado. Mas para terminar a carta, eu não poderia deixar de te dar um toque. O pai de Preta Gil que o deputado diz que é “aquele que vive dando bitoquinha em macho por aí” é muito mais homem que o senhor porque ele não tem medo de beijar homem e ainda assim ter uma conduta heterossexual, Gilberto Gil não tem medo, não é covarde e sabe bem o que deseja, por isso a tranquilidade de oferecer seu beijo a quem quer que ele queira. Costuma-se dizer que todo homofóbico é um gay enrustido, eu francamente prefiria de coração que esse exemplo não coubesse na figura de Jair Bolsonaro, porque ter o senhor como gay é pior que dormir com o inimigo.
Atenciosamente,
um viado que teve pai presente, boa educação e pago meus impostos para que o senhor receba um salário polpudo no fim do mês.
Escrito por Vitor Angelo às 13h38.
28/03/2011
Educação e homossexualidade
Acima temos um vídeo educativo explicando não só a homossexualidade como também os ataques que essa orientação sexual sofre. O vídeo caminha pelas regras dos "news studies" e tem uma forte linguagem politicamente correta. Percebe-se o embasamento na ciência para comprovar as teorias e também a linguagem adotada pela correção política, nunca usar opção e sim orientação. Na verdade, essa implicância com as palavras é uma forma de emparedamento da linguagem tão opressora quanto a que é vivida diariamente entre os homossexuais. É importante atentar para esses materiais didáticos, pois por mais que eles tenham uma função de ser claro, e nisso o textoe as imagens são exemplares, ele - esse vídeo - também fecha para a maleabilidade da sexualidade humana. Existem homens e mulheres que experimentam o sexo gay e depois se sentem mais confortáveis sendo héteros e vice-versa. Emparedar também a sexualidade humana é uma forma de opressão. Sim, o vídeo apenas quer ser didático, mas precisamos atentar para que o didatismo não repita formas de opressão que ele tanto combate.
Escrito por Vitor Angelo às 20h46.
quinta-feira, 31 de março de 2011
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário