Gilberto Salce Junior, ou melhor, a transexual brasileira Gisberta foi assassinada na Cidade do Porto, em Portugal em 2006. Antes, durante dois dias, foi mantida em cárcere sendo torturada e violentada até ser jogada em um poço onde morreu afogada, ainda viva.
Os culpados pela sua morte e assassinato foi um grupo de adolescentes entre 12 e 16 anos.
"A Balada de Gisberta, de Pedro Abrunhosa, restitui à personagem sua condição humana, destroçada; leva-nos, com tais informações extras, a pensar sobre as políticas públicas de segurança e respeito mútuo universais; e guarda de menores.
Cantada em primeira pessoa, a canção, com suas porções generosas de fantasia, realidade e delírio, pergunta: Qual é a participação de cada um de nós (ouvintes: tocados e chocados) neste monstruoso assassinato?
O que motiva tais gestos? Corpo profanado pelas crianças-carrascos, que dizem estar "brincando".
Gisberta exige resposta, ação e mudança coletiva e efetiva.
É com esta canção que Maria Bethânia fecha o primeiro ato de seu show Amor Festa Devoção (guardado em disco de mesmo nome, 2010). Transfigurada em Gisberta (a sem nome, sem sexo: só paixão e queda) a cantora imprime o tom mais que perfeito para marcar a saída de cena: quando perigo e encanto; alerta e convite nos envolvem.
Moradora de rua, arrastada, depois da tortura, para ser arremessada dentro de um poço d'água e morrer afogada, Gisberta é símbolo e signo de nossa condição (des)humana. Aliás, ela seria queimada viva, mas a água, ao invés do fogo, pareceu ser um final "melhor": já que o corpo afundaria, apagando para sempre a imagem de Gisberta e da "brincadeira infantil".
A água e seu mugido fez de Gisberta a sereia que não nos deixa esquecer o quão longe estamos do amor (potência sempre em desenvolvimento) coletivo.
Se só o (trans)amor é real, Gisberta o chama: mesmo que ele esteja tão longe.
O amor é tão longe! Há limite para a brincadeira? Qual?
O fato de Gisberta ser soropositiva e toxicodependente, como sugeriram alguns advogados? Quem matou Gisberta? A água ou as crianças?, perguntou o Ministério Público. Homicídio ou afogamento?"
Faça das suas palavras as minhas, Leonardo Davino, pois não poderia ter dito nada melhor que você a respeito desta história que me chocou (ainda que tardiamente, pois só agora tomei conhecimento) e me arrancou lágrimas.
Me doeu fundo, porque como diz a letra, a distância até o fundo é curta, também no sentido da emoção, no meu caso.
domingo, 29 de maio de 2011
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