Se somos severinos iguais em tudo na vida, morremos de morte igual, mesmo a morte severina.
Que é a morte que se morre de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia..."
Que é a morte que se morre de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia..."
E assim se inicia a narrativa da dura e seca poesia de João Cabral de Melo Neto chamada MORTE E VIDA SEVERINA que acabo de reler e conto a vocês, e nem por isso menos tocante, forte e emocionante!
A importância do rio, o valor da crença e da oração, a solidariedade e as gritantes diferenças entre as classes sociais, são alguns dos temas abordados na obra.
A vida e a morte são igualmente tratadas. A vida é severina porque castiga o homem, porque exige dele aquilo que ele não tem. A morte é severina porque, ao lhe tirar a vida, ainda é mais generosa que ela: ao morrer, o homem ganha uma cova, um pedaço de terra que, apesar do tamanho, é ainda maior do que aquilo que ele pôde conquistar em vida.
É a vida que poderia caber a qualquer um de nós brasileiros: pobres, migrantes, sem identidade, negros, pardos, nordestinos ou de qualquer lugar; filhos da mesma terra que a uns privilegia e a outros faz sofrer.
Ao final do poema, quando o retirante questiona o valor dessa vida tão difícil, conquistada com tanta renúncia e sofrimento, o carpina lhe responde paradoxalmente àquela realidade que ele via sem esperança:
E não há melhor resposta
Que o espetáculo da vida:
Vê-la desfiar seu fio
(que também se chama vida),
ver a fábrica que ela mesma,
Teimosamente, se fabrica,
Vê-la brotar como há pouco
Em nova vida explodida;
Mesmo quando é assim pequena
A explosão, como a ocorrida;
Mesmo quando é uma explosão
Como a de pouco, franzina;
Mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.
Separei uma cena do enterro do sem-terra, com a ótima participação da Tânia Alves (só para ilustrar o texto), mas vale mesmo ler a obra!
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